Se a importação bate recorde, por que o acesso à cannabis medicinal ainda é tão difícil?
- Abins Saúde
- há 3 dias
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A importação de cannabis medicinal no Brasil bateu recorde.
Segundo reportagem da CNN Brasil, com dados da Cannect obtidos via Lei de Acesso à Informação, março de 2026 registrou 23.199 importações de produtos à base de cannabis medicinal. O número representa crescimento de 60,1% em relação a março de 2025, quando foram registradas 14.485 permissões. No primeiro trimestre de 2026, as autorizações concedidas pela Anvisa já somavam mais de 61 mil.
À primeira vista, esse crescimento parece indicar que o acesso está avançando rapidamente.
Mas essa é apenas uma parte da história.
Se a importação cresce tanto, isso também revela outra realidade: muitos pacientes ainda dependem de caminhos individuais, caros e pouco previsíveis para conseguir manter o tratamento.

O crescimento mostra demanda, mas também revela uma lacuna
O aumento das importações não deve ser interpretado apenas como crescimento de mercado.
Ele mostra que cada vez mais pessoas estão buscando alternativas terapêuticas para condições como ansiedade, dor crônica e insônia, apontadas na reportagem como algumas das principais motivações de busca pelo tratamento.
Mas quando milhares de pacientes precisam recorrer à importação individual, isso também indica que o sistema de acesso ainda não está suficientemente estruturado.
Na prática, o tratamento existe.
A prescrição existe.
A demanda existe.
Mas o caminho até o medicamento ainda pode ser longo, burocrático e financeiramente difícil para muitas famílias.
Importar não é o mesmo que ter acesso garantido
A importação individual foi um avanço importante para a cannabis medicinal no Brasil.
Ela permitiu que muitos pacientes acessassem produtos que antes estavam completamente fora do alcance.
Mas esse modelo tem limitações claras.
Importar exige prescrição médica, autorização sanitária, compra internacional, pagamento em moeda estrangeira em muitos casos, prazos logísticos e acompanhamento contínuo para evitar interrupção do tratamento.
Para uma família que depende do medicamento todos os meses, qualquer atraso, variação de preço ou dificuldade documental pode comprometer a continuidade terapêutica.
Por isso, o aumento das importações precisa ser lido com cuidado.
Ele mostra avanço, mas também evidencia dependência.
O custo ainda é uma das maiores barreiras
Um dos principais desafios da cannabis medicinal no Brasil continua sendo o custo.
Mesmo com maior conhecimento sobre o tema e mais profissionais prescrevendo, o tratamento ainda pode ser financeiramente inacessível para grande parte da população.
Quando o acesso depende de importação, o paciente fica exposto a custos de produto, frete, tributos, variações cambiais e eventuais atrasos.
Isso cria uma desigualdade importante.
Quem consegue pagar, importar e manter acompanhamento médico tende a acessar o tratamento com mais facilidade.
Quem não consegue, muitas vezes precisa buscar associações, programas públicos ainda limitados ou judicialização.
A dependência da importação mostra que ainda falta estrutura nacional
Entre 2015 e 2025, mais de 660 mil autorizações individuais de importação foram registradas, segundo a CNN. A mesma reportagem informa que 49 produtos de 24 empresas possuem aprovação da Anvisa e estão disponíveis para comercialização em farmácias.
Esses números mostram que o Brasil avançou.
Mas também mostram que a importação individual ainda ocupa papel central no acesso.
Isso reforça a importância de políticas públicas, produção nacional, protocolos clínicos e modelos sustentáveis de fornecimento.
Sem isso, o paciente continua dependendo de uma solução individual para um problema coletivo.

Mais produtos não significam acesso igual para todos
A presença de produtos autorizados em farmácias representa um avanço regulatório.
No entanto, disponibilidade comercial não significa, automaticamente, acesso real.
Para muitas famílias, o medicamento pode estar regularizado, disponível e prescrito, mas ainda assim permanecer fora do alcance por causa do preço.
Esse é um ponto essencial.
Acesso não é apenas existir no mercado.
Acesso é conseguir chegar ao paciente de forma contínua, segura e financeiramente possível.
O crescimento também exige mais formação médica
Outro ponto importante é que o aumento da demanda precisa ser acompanhado por formação profissional.
A reportagem da CNN destaca que, à medida que mais médicos conhecem a terapia e perdem o receio de prescrevê-la, o número de pacientes cresce.
Mas esse movimento ainda precisa ser sustentado por educação médica, diretrizes clínicas e acompanhamento responsável.
A cannabis medicinal exige avaliação individual, escolha adequada de produto, ajuste de dose, atenção a interações medicamentosas e monitoramento da evolução clínica.
Sem profissionais preparados, o crescimento do setor pode ampliar a procura, mas não necessariamente garantir cuidado seguro e bem conduzido.
O paradoxo da cannabis medicinal no Brasil
O Brasil vive hoje um paradoxo.
A cannabis medicinal nunca foi tão buscada.
Nunca houve tantas autorizações de importação.
Nunca o tema esteve tão presente no debate público.
Ao mesmo tempo, milhares de pacientes ainda enfrentam barreiras para iniciar ou manter o tratamento.
Esse paradoxo mostra que o país já avançou na permissão.
Mas ainda precisa avançar na organização do acesso.
O desafio agora é transformar demanda em política de cuidado
O recorde de importações não deve ser visto apenas como um número positivo.
Ele deve ser lido como um sinal.
Existe uma demanda real por cannabis medicinal no Brasil.
Existe busca por alternativas terapêuticas.
Existe crescimento da confiança no tratamento.
Mas também existe desigualdade.
Se o acesso continuar dependendo principalmente da capacidade individual de importar, pagar e judicializar, muitos pacientes seguirão ficando para trás.
O próximo passo precisa ser estrutural.
Mais protocolos.
Mais formação médica.
Mais programas públicos.
Mais segurança regulatória.
Mais continuidade no tratamento.
Informação também é acesso
Na ABINS, acreditamos que o crescimento da cannabis medicinal no Brasil precisa ser acompanhado por responsabilidade.
Não basta que mais pessoas busquem o tratamento.
É preciso garantir que elas tenham orientação segura, acompanhamento adequado e caminhos possíveis para manter o cuidado ao longo do tempo.
A importação bateu recorde.
Agora, o desafio é fazer com que o acesso também avance.





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